A New Beginning

Depois de quase um mês, dou o ar da graça. É que a minha vida simplesmente virou do avesso.

Desde o dia 3 desse mês de maio, estou vivendo no Québec. Tudo é completamente novo, e sinto como se vivesse numa espécie de “bolha de sonho” que vai estourar mais dia menos dia, face à realidade assustadoramente desconhecida.

Tudo começou com uma desgastante viagem de quase 24 horas, cerca de 16 voando e 8 de espera em aeroportos, entre Tocumen no Panamá e Toronto, já no Canadá. Mas, graças a Deus (cuja verdadeiro amor tenho testemunhado desde antes do avião decolar), tive a ventura de conhecer duas pessoas excelentes, uma canadense e outro brasileiro, que me ajudaram como nunca. Ao procurar um apartamento para alugar em Québec, li um anúncio enviado por meu amigo Sosô (que está na Ubisoft daqui, um sonho de consumo), e ao entrar em contato com o anunciante, descobri ser o mesmo um cearense que morava já há 6 anos aqui (sim Adolpho, estou falando de você mesmo :D). Através dele, consegui alugar o apartamento de uma quebecoise convenientemente lusófona (oi Elisabeth! :D); com a maior boa-vontade, ela me deixou um lugar mobiliado, com tudo à minha disposição. Nem pude acreditar.

Ao chegar, fui recepcionada pelo Adolpho, que me convenceu a ir resolver o máximo de coisas possíveis, apesar do cansaço; nada mais útil, e no fim do dia, apesar de não ter dormido e estar meio zumbi, já tinha comida na geladeira. Depois veio o turbilhão de coisas: desfazer as malas (e ter uma crise alérgica tremenda), tirar o NAS (uma espécie de CPF daqui), fazer um cartão Opus (tipo um VEM daqui), fazer um assurance-maladie, abrir conta em banco, comprar um chip de celular (e tentar entender como funciona aqui), ir conhecer os serviços de procura de emprego…

Apesar da correria e da ansiedade em resolver a “vida civil”, como diz meu pai, também pude passear um bocado, vendo lugares lindos como a Vieux-Québec e Montcalme, e mesmo os arredores de Ste-Foy, onde moro (e ainda ficando perdida a uns 200 metros de casa, como sempre). Aliás, devo muitos passeios a outro brasileiro, de Recife como eu (sim Leonel, estou falando de você :D). A tranquilidade para andar à toa, de tablet na mão e cara pra cima… é uma das coisas que mais aprecio aqui.

Uma prova desta tranquilidade é que divido o apartamento com um quebecois (ao saber que ia dividir um apê com um homem desconhecido, meu pai quase enfarta), e meus receios se provaram infundados. Só o conheci no terceiro dia da minha chegada, pois ele tem uma rotina de trabalho noturna. Curiosamente, apesar de não vê-lo, fui notando os sinais de sua passagem (parecia até um fantasma :D): as roupas tiradas da máquina de lavar, seus passos sutis ao chegar de madrugada, um bilhete deixado me dando boas-vindas. Quando finalmente nos conhecemos, conversamos um pouco, em inglês e francês, e foi tudo. Inclusive, já faz quase 1 semana que não o vejo…😛

Desde que cheguei, tenho tido uma vida social agitada como nunca tive antes no Brasil. Mal cheguei e já fui a 3 aniversários, 2 brasileiros e 1 quebecois; tenho conhecido gente de todos os cantos do Brasil, a maioria morando aqui há tempos. Pretendia ter mais contato com os nativos, mas a dificuldade da língua ainda me distancia deles; apesar de ter estudado mais de 300 horas de francês, mal consigo compreender o que fala o povo daqui. No entanto, pude conhecer um quebecois, amigo da Elisabeth, e testemunhar sua generosidade e paciência com minha ansiedade e meu francês torto (sim Jean-Marc, é você :D); mais de uma vez me levou a passear e ainda me emprestou um PC, com todos os programas que preciso instalados.

E hoje, finalmente, comecei a semana de integração para imigrantes oferecida pelo governo. Tive contato com pessoas de várias partes do mundo, e espero pode “abrir a mente” o suficiente para compreender as nuances desta cultura tão diferente na qual me acho agora… há muito em que pensar e fazer, há a agonia em arranjar um emprego, em compreender a língua, em driblar a solidão que de vez em quando bate, ainda muito abafada pela novidade da mudança. Aqui o silêncio é constante, um silêncio que parece permear mesmo o som do movimentado Boulevard Houchelaga, que passa ao largo do meu bloco. Tudo o que escuto, ao estar em casa, é o tique-taque do relógio na parede.

Apesar de pensar ser uma “alma-de-gato”, me surpreendo pensando em alguém que deixei no Brasil, mesmo nos eventos mais simples. Vejo carrões que não existem no Brasil e lembro do meu irmão; vejo lojas de caça e Playstations por volta de 400 dólares e lembro de meus amigos gamers… vejo coisas díspares como corvos, pés de pimenta, lojas de roupas góticas e a pele branca dos nativos, e me lembro de minhas amigas queridas (dona Neves, Ximenes, Karinna e Val, já sacaram as referências né?)… lembro-me da mala cheia de roupas doadas, por tias, amigas de tias, vizinhas…

Sobretudo, lembro de minha mãe, ao ver tantos lindos jardins, e como o povo daqui cuida deles. Lembro de meu pai, de como ele gostaria da organização da vida aqui. Lembro de minha avó, ao ver como os idosos vivem bem nesta cidade.

Enfim, como disse no começo do post, é muita coisa na cabeça! E para tudo ir assentando, vou retomar aos poucos minha rotina, e isso inclui postar no blog com regularidade. Agora tenho computador, Photoshop e nenhuma desculpa; este foi um post atípico, mas a minha dupla “obrigação moral” de registrar minha chegada ao Québec e justificar minha ausência de escrita já foi cumprida.

Amanhã, se Deus o permitir, esse blog volta com os sketches e o mimimi do costume. Au revoir!

3 thoughts on “A New Beginning

  1. Que bom que vc tá gostando daí. É uma grande experiência p qq um. Sinto muito sua falta por aqui, dos cafezinhos q a gente tomava quase diariamente, mas sempre soube que um dia iriamos nos separar. Felizmente tudo correu bem e espero que continue assim. Te amo muito, minha amiga, e não importa qto tempo passe, se nos encontrarmos de novo nesses caminhos da vida, vc vai ver que nada mudou dentro de mim. Até algum dia.

  2. Querida amiga, sei que estamos sempre distantes, e agora mais ainda! Mas você está sempre em meus pensamentos… Lembro de todas as nossas saídas doidas, os cafés, os almoços em Casa Forte… As doideiras da faculdade. Lembro até do primeiro dia em que nos conhecemos na sala de aula e eu estava desenhando um “olho” doido… rsrsrs Lembro até dos desenhos que você fazia pra ganhar “cornetos” rsrsrsrs Muita coisa boa! Sinto falta da forma como, mesmo depois de muito tempo sem nos vermos, nos encontrávamos e conversavamos como se tivéssemos nos visto ontem. Minhas infindáveis histórias sobre romances tórridos e suas eternas histórias sobre os mistérios dos homens… rsrsr Sinto sua falta, porque sei que agora será ainda mais difícil marcar um café no Plaza ou um almoço na esquina do trabalho. Abraço apertado! Ceci

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